A análise da Conjuntura da Semana é uma (re) leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores –CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro do IHU na elaboração dasNotícias do Dia.
Sumário:
Demarcação
de terras indígenas: Retrocesso gigantesco
Governo
assume proposta dos ruralistas
Ganhou
o “jogo pesado” do agrobusiness
Razões
políticas e econômicas da opção do governo pelos
ruralistas
Movimentos indígenas reagem: “Direitos jogados no lixo da história”
Quem está do lado dos índios?
Movimentos indígenas reagem: “Direitos jogados no lixo da história”
Quem está do lado dos índios?
Eis
a análise.
Demarcação
de terras indígenas: Retrocesso gigantesco
Governo
assume proposta dos ruralistas
O
dia 8 de maio de 2013 entrará para a história como uma data que
registra um gigantesco retrocesso na política indigenista
brasileira. Na audiência realizada pela Comissão de Agricultura,
Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, na Câmara dos
Deputados, a ministra da Casa Civil Gleisi
Hoffmann falando
para uma plateia de ruralistas anunciou drásticas mudanças na
política de demarcação das terras indígenas.
A
ministra – para satisfação dos fazendeiros e empresários
do agrobusiness,
homens brancos e acima dos 50 anos que a ouviam – disse que “a
Funai é um órgão envolvido com os interesses indígenas, e que,
portanto, ela não é imparcial, colocando sob suspeição a
competência da instituição para desenvolver as atribuições que
estão sob a sua responsabilidade”. Ato contínuo, após efusivos
aplausos, anunciou que até o final deste semestre será definido um
novo marco regulatório para os processos de demarcações das terras
indígenas. Era tudo os que os ruralistas queriam ouvir.
Daqui
para frente, a demarcação de terras indígenas que já vinha
patinando – em dois anos, Dilma homologou
menos áreas, em média, do que seus antecessores no cargo – ficará
inviabilizada. O governo irá submeter à Embrapa os estudos em
andamento pela Funai para
demarcação de terras indígenas e também os Ministérios da
Agricultura, do Desenvolvimento Agrário e das Cidades devem passar a
opinar sobre as demarcações. Dos três ministérios, dois estão
nas mãos de ruralistas.
Com
o anúncio da ministra terminava aí o desfecho de uma agressiva
ofensiva iniciada pela bancada do agronegócio para inviabilizar a
demarcação de terras indígenas. Não contentes, porém, a bancada
ruralista conta ainda com a pá de cal, a PEC 215, para acabar de vez
e enterrar qualquer tentativa que territórios sejam retomados pelos
indígenas.
Mais
triste ainda: Dias depois, diante da indignação das organizações
ligadas ao movimento indígena, a ministra Gleisi
Hoffmann disse
que “o governo não pode e não vai concordar com minorias com
projetos ideológicos irreais”. A demarcação das terras
indígenas, um direito constitucional, virou um “projeto ideológico
irreal” e os povos indígenas “minorias” que devem se calar.
Ao
qualificar a luta indígena como “projeto ideológico irreal”, o
governo assumiu o discurso ruralista. Sobre isso diz Egydio Schwade
um dos fundadores do Cimi:
“É humilhante ver uma ministra do nosso governo, propor a revisão
das demarcações de terras indígenas dos últimos 25 anos. Seria
para ampliar esses territórios já livres do capitalismo?
Infelizmente não! Será para anexá-los ao agronegócio, abri-los
para a exploração capitalista da mineração, ou cobri-los com as
águas de lagos hidrelétricos”.
Tudo
muito triste para um partido que um dia defendeu os direitos dos
povos indígenas. Como escreve Egydio
Schwade,
citado anteriormente, “o PT no poder parece que esqueceu toda a
trajetória que o construiu, as pessoas e a causa que o construíram
e até a história de pessoas que compõe o governo no poder”.
“É muito doloroso, afirma ele, que a sociedade, à frente os povos
indígenas, tenha que partir para o confronto contra o PT-Governo,
para evitar que este se afunde de vez no agronegócio dilapidador da
biodiversidade e ainda para impedir a exploração predatória e a
exportação como commodities dos
recursos minerais não renováveis, por empresas multinacionais”.
A
decisão do governo de desautorização da Funai como
órgão responsável pela política de demarcação de terras para os
povos indígenas e por extensão povos tradicionais, como
quilombolas, significa na análise de assessores dos movimentos
sociais ligados à luta indígena um estrago gigantesco nas políticas
públicas indigenistas e com consequências imprevisíveis. Décadas
de esforços para dotar a legislação brasileira de instrumentos de
defesa dos povos indígenas foram jogados por terra.
Ganhou
o “jogo pesado” do agrobusiness
Ganhou
o “jogo pesado” dos homens do agrobusiness como
destaca Egon Heck, missionário do Cimi.
A ofensiva ruralista vem de longe. Após a vitória no Código
Florestal, a bancada ruralista escolheu como alvo o fim da demarcação
das terras indígenas que em sua opinião atrapalha o desenvolvimento
do agronegócio brasileiro.
Segundo
o secretário Executivo do Conselho Indigenista Missionário – Cimi,
Cleber Cesar Buzatto a estratégia da bancada ruralista e da
Confederação Nacional da Agricultura – CNA possui
três vértices principais.
O primeiro visando
o executivo pede a “suspensão” de todos os procedimentos
administrativos de demarcação de terras indígenas que estejam em
curso. Esse já foi atingido com a fala da ministra Gleisi
Hoffmann.
O segundo busca
tornar lei a Portaria 303 da Advocacia Geral da União – AGU,
a arena dessa luta é o Poder Judiciário, especialmente, o Supremo
Tribunal Federal – STF.
Já o terceiro é
a aprovação da PEC 215/00, com a qual aCNA e
os ruralistas, finalmente, teriam o poder nas próprias mãos para
decidir acerca da “não” demarcação das terras indígenas no
país.
Vencida
a primeira batalha, os ruralistas devem avançar para os próximos
pontos da estratégia. Caso avancem – o que é bastante possível
considerando que o governo Dilma não
oferece resistências à sanha voraz do agronegócio -, significaria
o fim definitivo da demarcação de terras indígenas. Restariam aos
indígenas ainda sem territórios viverem em guetos e à custa de
políticas sociais compensatórias. Esse é o projeto dos ruralistas:
“A classe produtora é a favor do indígena e sabemos que eles
precisam de amparo social e não de terras”, diz o diretor da
Federação da Agricultura e Pecuária (Famasul)
do Mato Grosso do Sul, Ruy Fachini.
Entre
os ruralistas e indígenas, por razões políticas e econômicas, o
governo ficou com os primeiros
O
cerco dos ruralistas deu certo. Contou, porém, com a enorme
condescendência do governo. O governo cede por duas razões, uma de
ordem política e outra de ordem econômica.
Razões
políticas:
O governo Dilma
Rousseff tornou-se
refém da bancada ruralista. Necessita dela para avançar em seus
projetos, entre eles, o mais recente, a MP dos Portos. A bancada
ruralista chantageia, joga pesado, barganha. Sabe como enredar o
governo porque joga de forma unitária, classista, não titubeia na
defesa dos seus interesses. Há análises que interpretam que o maior
partido no Brasil é o ‘partido dos ruralistas’.
Um
grupo de parlamentes na Câmara dos Deputados e no Senado age em
sintonia, com foco na defesa da agenda ruralista. O grupo, porém,
não joga apenas na arena política de Brasília, joga também em
seus territórios regionais e locais. As vaias que a
Presidente Dilma recebeu
recentemente quando em visita nos Estados do Paraná e Mato Grosso do
Sul, por movimentos organizados pelo agronegócio que disputa a posse
das terras tradicionalmente ocupadas com os povos indígenas nesses
Estados, é um recado de quem sabe aonde quer chegar.
Ainda
mais, toda feira do agronegócio, e são muitas pelo Brasil, se
transformaram em espaços de articulação e defesa ideológica dos
ruralistas. Em cada uma delas que a presidente Dilma participa,
ouve a ladainha de que o Brasil sem o agronegócio não vai para
frente.
Há
outra razão da subserviência do governo às demandas dos
ruralistas. Na ótica do governo, afrontar os ruralistas é
empurrá-los para o apoio a outras candidaturas. Nas articulações
políticas visando 2014 não é bom tê-los como inimigos avalia o
Palácio do Planalto. Sabe-se que o apoio dos ruralistas foi
importante para a vitória de Dilma
Rousseff em
estados da região centro-oeste. As articulações para reeleição
de Dilma contam com o apoio senão de todos, de parcela significativa
dos ruralistas.
Razões
econômicas:
A “afinidade” do governo com os ruralistas se dá também em
função do seu modelo econômico desenvolvimentista. O modelo
econômico brasileiro em curso é altamente dependente da exploração
de matérias-primas, em especial de commodities agrícolas
e minerais para exportação [soja, etanol, pecuária, minérios...].
Logo, o Estado brasileiro se torna anti-indígena assim como o
agronegócio, porque o seu modelo vai na contramão do modo de vida
indígena.
A
tensão ocorrida nesses dias no canteiro de obra da hidrelétrica de
Belo Monte envolvendo a Secretaria Geral da Presidência e os
indígenas, particularmente, os Munduruku é emblemático da
idiossincrasia entre o projeto do governo e o que querem os
indígenas.
Na
queda de braço, além da força política, o agronegócio acaba
sendo favorecido pelo modelo econômico do governo: “O econômico é
o único compromisso do atual governo. Nada pode impedir que os
propalados ‘progresso e desenvolvimento’ avancem sobre novas
áreas, desconhecendo totalmente os direitos dos povos que há
séculos ali vivem e convivem, se assim o governo definir como
essenciais ao desenvolvimento”, afirma nota da Comissão Pastoral
da Terra – CPT.
O
mesmo diz Egon Heck, que há décadas acompanha a luta indígena no
país: “É no campo dos ruralistas, do agronegócio, que está
sendo definido o jogo contra os índios, as terras indígenas e os
recursos naturais (madeira, minérios…). E o governo decidiu
reforçar o time do contra. Já o vinha fazendo há mais tempo. Lula
disfarçava defender os índios, mas acabava fazendo gol contra.
Dilma entrou de sola. Nada de ficar perdendo tempo ouvindo os índios,
demarcando terras. Time mesmo é o do agronegócio. Nessa aposta.
Eles se consideram os donos da bola”.
Entre
os ruralistas e os indígenas, por razões políticas e econômicas,
o governo decidiu ficar com os primeiros. Essa decisão, porém,
atenta contra um projeto de Nação. Como destaca a antropóloga
Spensy Pimentel “num país como o Brasil, o bom trato com a questão
indígena ajuda a definir o grau de nobreza de um governo. Porque os
indígenas, aqui, não são expressivos, em termos eleitorais, mas
eles são um componente da mais alta relevância no que se refere a
nossa história e nossa identidade como brasileiros”.
Segundo
ela, “é preciso que exijamos do governo algo além de uma atitude
pragmática, de uma realpolitik que
ignora um passado de altos ideais de toda a militância de esquerda
deste país. Chico Mendes, por exemplo, foi um petista de primeira
hora! O que ele diria sobre o que se passa hoje com a Amazônia, com
os povos indígenas?”
Movimentos
indígenas reagem: “Direitos jogados no lixo da história”
O
retrocesso enorme na política de demarcação de terras foi
respondido com indignação pelos povos indígenas. A Articulação
dos Povos Indígenas da Região Sul – ARPINSUL em
nota afirmou: “Mais uma vez os direitos indígenas sofrem um duro
golpe daquele que deveria defendê-lo, o Estado Brasileiro, no
entanto o agronegócio é o merecedor das recompensas, da
solidariedade e da proteção do Estado Brasileiro em detrimento de
direitos humanos e fundamentais conquistados a nível nacional e na
arena internacional a duras lutas pelos Povos Indígenas, direitos
estes jogados no lixo da história pelos colonizadores e pelo Estado,
que agora cala a nossa voz em nome do desenvolvimento”.
“Este
governo não respeita os povos indígenas do Brasil”, disse a
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
(COIAB)
também em nota pública. Segundo a organização, “o atual governo
tenta impor sobre nós seu estilo colonialista e dominador; em meio a
tantos avanços do mundo moderno ainda temos um governo incapaz de
sentar-se à mesa e dialogar conosco, os últimos acontecimentos
comprovam essa prática: policia federal, guarda nacional, ameaças,
pânico e mortes”.
A ARPINSUL faz
ainda um alerta: “Enquanto o Estado Brasileiro não tratar a
questão indígena com o respeito que merece, os conflitos serão
constantes e a violação de direitos humanos se intensificará ainda
mais, porque não nos calaremos e seremos implacáveis na luta pelos
direitos que custaram o sangue dos nossos antepassados!”
O
alerta da possibilidade do recrudescimento em torno da questão
indígena também é destacado por Cleber Buzatto, secretário
executivo do Cimi.
Diz ele: “Estamos extremamente preocupados. Quanto mais o governo
cede, se omitindo na efetivação dos direitos indígenas sobre suas
terras, mais os ruralistas atacam esses direitos. As movimentações
intensas, sistemáticas e sem qualquer tipo de limite ético
demonstram que o ruralismo faz uso de terrorismo político no ataque
aos povos indígenas no Brasil. As consequências desse processo são
imprevisíveis”, afirma.
Em
outro artigo, Cleber
Buzatto afirma
que essa possibilidade deve-se ao fato de que a “democracia
ruralista não tem outro caminho e horizonte senão a ditadura e a
morte”. O mais grave diz ele, é que foi “o governo Dilma quem
deus asas a essa ‘democracia’ ruralista”.
Quem
está do lado dos índios?
O
retrocesso em torno da demarcação das terras indígenas somados ao
que aconteceu no “abril indígena” e no canteiro de obras de Belo
Monte revelou ainda outro aspecto. O irrisório apoio de organizações
tradicionais da esquerda, ou pretensamente da esquerda.
O PT e
a CUT não
se manifestaram. Ficaram silenciosas. O PCdoB já
demonstrou que é anti-índigena, sempre que a pauta da questão
indígena está em jogo, o partido fica do lado das forças mais
atrasadas. Dentre os partidos, mais à esquerda, como PSOL e PSTU,
os protestos foram tímidos.
Restou
no firme e incansável apoio à luta indígena o Conselho Indigenista
Missionário – Cimie
algumas organizações não governamentais. É muito pouco. Como
destaca o antropólogo Gersem
Baniwa [citado
por Egon Heck]: “Um plano indigenista para o Brasil passa pela
existência de um Projeto de Nação do Brasil. Quando observamos a
difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes
violações de seus direitos básicos, como o direito ao território
e à saúde, podemos acreditar que ou o país ainda não definiu seu
projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar
para os povos indígenas”.
Fica
então a pergunta: Será que os povos indígenas não fazem parte -
ou não cabem – do projeto de Nação da esquerda brasileira?
(Ecodebate,
21/05/2013) publicado pela IHU
On-line,
parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU
On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo,
RS.]


